Thursday, October 30, 2008

à Anna Akhmátova

Pois me encontro contigo aqui comigo.
Recebo seu ramalhete, lhe dou água.
Ouço seu peito, beijo sua boca pálida.
Num instante, o chão uma jangada.

Você limpa meus cabelos lisos dos meus olhos.
Se surpreende; "como, por que choras?"

Sob sobrancelha direita a cicatriz disfarçava outras marcas.
A seda que visto nem é seda minha.
E violetas, veja, não deveriam ter este nome.
Mesmo assim.
Viestes.

(De costas ela se vira,
se aproxima mais da luz da janela)

Não fique aí distraído.
Ande, feche meu colarzinho de contas.

Thursday, September 18, 2008

in Texas

“If all you ever do is all you’ve ever done, then all you’ll ever get is all you ever got.”

Wednesday, September 03, 2008

Sicília: Incontri Eccellenti



Todas as vozes das mentes. Na igreja singela de Astra, ninguém estava ali.
Usavam cartolas, luvas. Elas, chapéus e dignidade. Mas não estavam ali. Uns com fome, outros com tesão. Não estavam ali. Um sapato que machuca, um sutiã que aparece, não estavam ali. Tinha que estar em Paris, e estava ali. Tinha que estar em Milão e estava ali. Tinha que estar acompanhada, não estava. O taxi caro. Em euros. Não se conformava. O outro com sua gordura pra fora, o cabelo em sebo, o peso da pele sobre os olhos. Os olhos no decote, a boca na porra, a porra no cabelo, cabelo melado. Não estavam ali. Seu cachorro sozinho, lambendo o pau do vizinho. Não estava. O noivo, ateu, dissidente, Não estava.
Não havia ninguém na igreja lotada.
Até que.

Ao alto, a Tocata.
Ela entra.
Solene. Cecília. Seu véu, sua entrada.
Imaculada.

Chega como uma chuva torrencial, lavando cada fígado deles. Encharca cada arranjo de cabelo, cada sapato solado.
Cada bolsa minúscula, cada bolso em segredo.
Cecília não tinha nos pés a leveza da noiva. Tinha o chumbo do prisioneiro. A tonelada que não descama em quem permanece guardada. Não tinha um buquê, tinha uma arma. Por todo o tempo que ela esteve, todos.
Estavam alí.

Não havia um pensamento em vão. Um piscar de pele.
Havia congruência. Fusão.
Porque ela estava alí, e vos acorrentou com ela, ela era o próprio buraco negro, aquele que chupa almas ordinárias. Sua força imperdoável de quem perdoa a todos.
A força da imaculada.
Foram todos perdoados do que não se arrependem.
Todos com Cecília, com seus olhos de Mediterrâneo.

Não houve casamento. Houve contrição.

Não houve casamento. Houve a despedida de Cecília.



****
E tem sempre aquela que desvia. De imaculada. Ou de ilesa. Como queria ser lembrada?

Friday, August 22, 2008

Alice ao Mar

Tudo nublado. Por dias, por meses. As caravelas armadas, à procura de novas terras.
No bico da proa ao alto, Napoleão e sua luneta desproporcinal, contemplavam.
Aos poucos algo sólido se apresenta. Sua vegetação intensa, seus pássaros em flechas.
As caravelas se aproximam com entusiasmo. Até que se avista o que parecia ser uma porção de homens nús. Seus pênis com penas. Quanto mais os barcos e seus soldados se aproximavam, mais percebiam que aqueles homens tais, eram muitos. Uma grande multidão de homens marrons. Pulavam num mesmo passo. E mesmo de longe, seu dentes rangendo.
Não haveria chance, gritavam os homens todos, eram em somente quinhentos soldados.
Um agito como um formigueiro pisado, se formava. Os soldados querendo recuar, se agrupando, se desagurpando, subindo suas cordas, subindo uns nos outros. Se aglutinando como um grande coágulo. Suplicavam que regressassem, ó comandante, ó Napoleão. Perverso, seu perverso, não nos atire ao mar.
Napoleão e toda sua altura, os acalma.
-Vamos todos descer! Todos em punho!
Os soldados,
-Como comandante? Nâo haverá batalha, não haverá nada. Morreremos todos.
Os soldados desesperados, mesmo com suas armas de fogo, tinham na boca aberta, o pavor da morte.
Napoleão,sem olhar para trás.

-Queimem as caravelas. Queimem tudo.

Tuesday, August 12, 2008

Fronteiras

Ela, Sofia, cuspia pra fora sua ira. Esgotada com este cara de linhas. Sua voz, o jeito que suas veias ficam verdes. Quando come, faz barulho, um eco. Um eco porque é vazio de Sofia. Aquela comida mastigada na sua língua geográfica, na sua papila valada, enchia mais espaços do que ela. Tem o cara, elementos de tantos cantos, mas de Sofia, tem um grosso amarelo de bile, de quem vomita com suas linhas. Não passe por aqui, esta pia é a minha. Este pedaço do tapete. Aqui, pague mulher, multa por transpasse. Esta área, mil vezes, me pertence. Você me suja, Sofia. Ouviu? Limpe toda sua merda e fique nos seus limites. Ouviu? Você já não cansou de matar as plantas, Sofia? Tire a mão da planta, tira já, sua harpia. Sua louca, sua pessoa inabitável. Sua sua.

Não temos plantas, temos musgos, temos mofo, temos rusgas. Nossa casa não é nossa. Tem coisas suas, tem coisas que você acha que são minhas. Você me presenteia com um bracelete de rubis e diamantes. Tem noção do quanto isso me dói? Saber que depois de meses, você não faz uma puta idéia de quem eu sou? E fica riscando estas linhas limitadas, me cortando os joelhos. Decepando minhas válvulas, minha vulva. Eu vulgívaga. E você me crucificando me exigindo o olho. Não tenho mais olho. Tenho um embrulho que nubla, que embaça na sua presença. Quando seu pau entra em mim, e as linhas se atrapalham, temos algo, e sabe o que é? O quadro do horror. Quando seu membro no seu maior estado, entra no meu maior buraco, e mesmo assim, continuo uma puta esburacada, sim, não temos nada.

Ela, Sofia, faz sua mala. Taca o bracelete na privada. E o cara está lá de pau duro deitado na cama dele. Jogando porra para o teto. A porra toda gozada voando para áreas que ela jurava que eram dela.

Tocou a campainha no vizinho. Jovem judeu ortodoxo fixo. Sofia entra, joga sua mala semi aberta no sofá. Por dias, por noites, não se comeram, se esparramaram.

Monday, August 04, 2008

Fodidos






Do dia para noite,


Deixou de ser

o macho armado,

E passou a ser

a fêmea frágil.








Da noite pro dia,


Deixou de ser

a fêmea armada,

E passou a ser

o macho frágil.



Armados de fragilidade.
Que mutante, ó, vida.

Tuesday, July 29, 2008

Nocaute

Me criou aos 10.
Me experimentou aos 11.
Me dissecou aos 12.
Me decantou aos 13.
Me trancou de volta no porão.
Sumiu. Sumi.

E me achou.
E me serve comida de colher.
E seu segredo foge.

Vou achar ele para você.